Um levantamento recente da Robert Half ouviu cem executivos brasileiros sobre como pretendem formar a liderança da próxima década. Setenta e oito por cento disseram estar preocupados em encontrar profissionais capazes de sustentar o negócio nos próximos dez anos. A preocupação é legítima. O problema é o que vem depois dela.

Quando os mesmos executivos foram perguntados sobre o que estão fazendo a respeito, a resposta mais citada foi treinar gente em inteligência artificial e em dados. Faz sentido na superfície. E é, na minha leitura, a aposta na camada errada.

A régua que ninguém revisou

A maioria das empresas escolhe sucessor pela mesma régua com que escolhe quem promover: quem domina melhor o operacional. Quem entrega, quem conhece o processo a fundo, quem resolve o problema técnico mais rápido. Já tratei disso na primeira edição, quando falei do melhor técnico que virou gestor e viu o time desmoronar. A sucessão é a mesma armadilha, um nível acima e com mais dinheiro em risco.

Competência técnica e capacidade de conduzir um negócio não são o mesmo eixo. Nunca foram. A diferença é que, por décadas, dava para fingir que eram, porque o domínio técnico era escasso e valioso o suficiente para servir de proxy de tudo o mais.

O que mudou no pano de fundo

A IA não está deixando esse proxy obsoleto por mágica. Está fazendo algo mais prosaico: comoditizando o domínio técnico. O que era diferencial de um profissional sênior, a capacidade de produzir a análise, escrever o código, montar o relatório, está virando função de ferramenta.

O que não vira função de ferramenta é o julgamento sobre qual análise importa, a leitura de contexto que decide quando a regra não se aplica, a capacidade de decidir com informação incompleta e bancar a decisão. É essa a competência escassa agora. E é justamente a que a régua antiga não mede.

”A maioria das empresas que atendo escolhe sucessor pela régua de quem executa melhor. E é a régua errada para o mundo em que estão entrando.”

A aposta às cegas

Por isso o dado do treinamento em IA me preocupa mais do que tranquiliza. As empresas sentem o risco de continuidade, e respondem reforçando a camada que a IA está absorvendo. Estão preparando sucessores excelentes para uma operação que daqui a poucos anos vai rodar sem eles.

Os sinais de movimento existem: metade das empresas privadas e mais da metade das de capital aberto já combinam formar dentro e contratar fora, e há uma proliferação de cargos-ponte abaixo do alto escalão, criados para dar a futuros líderes exposição a decisão real. São tentativas honestas de fabricar o que a régua não entrega.

Mas tentativa de estrutura não corrige erro de critério. Se o que se mede para escolher quem sobe continua sendo desempenho técnico, o cargo-ponte só dá mais palco para a pessoa errada.

O que decide a continuidade

”A pergunta não é quem entrega melhor hoje. É quem decide melhor quando o mapa muda.”

São perguntas diferentes, e a maioria das empresas só faz a primeira. Continuar promovendo e formando pela régua técnica, no exato momento em que a técnica está virando commodity, é transformar liderança em ponto cego. E ponto cego de liderança é risco de continuidade.

Há um problema a mais embutido aqui, que merece a próxima edição: mesmo quem entende qual é a régua certa descobre que não tem mais o tempo que a sucessão sempre pressupôs. A régua mudou. O relógio também. Mas isso fica para a próxima.

Conhece um decisor que ainda escolhe sucessor pela régua antiga? Encaminhe esta edição. A conversa sobre sucessão costuma começar tarde demais.

Vamos conversar

Esse é exatamente o tipo de desafio que eu resolvo.

Se a sua empresa ainda escolhe sucessor pela régua de quem executa melhor, vamos rever o critério antes da próxima decisão.

Falar com Eloyse