Na edição passada eu disse que a maioria das empresas escolhe sucessor com a régua errada: mede quem executa melhor, quando deveria medir quem decide melhor sob incerteza. Suponha que você tenha corrigido a régua, que já saiba exatamente que perfil quer formar. Ainda sobra um problema que quase ninguém coloca na conta, e que sozinho derruba o plano. O tempo.

O pressuposto que ninguém audita

Toda lógica de sucessão pressupõe tempo de pista. A ideia de “formar” um sucessor assume anos: rotação por áreas, exposição gradual a decisão de verdade, erro controlado dentro de uma margem, maturação. Esse pressuposto nunca foi auditado, porque por décadas ele foi verdadeiro. Havia tempo.

A pessoa entrava cedo, subia devagar, e quando chegava ao topo já tinha repertório acumulado. O plano de sucessão podia ser um documento de gaveta, tirado de lá no dia em que alguém anunciava a saída, justamente porque a formação vinha acontecendo sozinha, ao longo da carreira, sem ninguém precisar acelerá-la. Agora a pista encolheu, e quase ninguém refez a conta.

O que comprimiu o tempo

Duas forças, atuando juntas. A primeira é demográfica: uma camada inteira de liderança sênior caminha para a aposentadoria, e a geração seguinte não foi formada no ritmo dessa saída. A segunda é a digital, que estava no pano de fundo da edição anterior e volta aqui por outro ângulo. Lá, a IA mudava o critério, o que medir num sucessor. Aqui, ela muda a velocidade.

Encurta o ciclo de vida da régua técnica: o tempo que você gastaria formando alguém pelo modelo antigo passou a ser tempo investido numa competência que expira antes de a pessoa chegar ao topo. Você forma um especialista impecável em três anos e descobre, no quarto, que a especialidade virou função de ferramenta.

”Menos gente pronta saindo por cima. Menos tempo para preparar quem fica embaixo.”

O custo de adiar

Uma cadeira de liderança vazia não é uma vaga aberta no organograma. É decisão que não acontece, time sem direção, cliente sem interlocutor à altura, oportunidade que passa porque não havia quem a lesse a tempo. Em empresa menor, é com frequência o dono fazendo o trabalho de três e chamando isso de “fase”. O custo de não ter sucessor pronto deixou de ser risco abstrato de longo prazo e virou risco operacional de agora.

Quase toda empresa que atendo trata sucessão como problema do ano que vem. Para a maioria, o ano que vem já chegou.

As respostas que aparecem no mercado, e que o estudo registra, são reveladoras. Quase um terço das empresas, 32%, já considera manter o profissional aposentado como consultor ou conselheiro para não perder o conhecimento que sai pela porta. Some a isso mentoria reversa e sistemas de gestão do conhecimento.

São manobras úteis, e eu não as descarto. Mas leia o que elas confessam. São providências de quem ficou sem tempo, segurando a operação enquanto a formação real não acontece. Sintoma de pressa, não solução de continuidade.

A régua diz quem formar. O relógio diz quando: agora.

Junte as duas edições e a sucessão muda de natureza. A régua certa diz quem você deveria estar formando: quem decide bem quando o mapa vira, não quem entrega melhor hoje. O relógio diz quando, e a resposta é agora, porque a pista diminuiu. As duas coisas juntas tiram a sucessão da gaveta. Ela deixa de ser um plano que se aciona quando alguém pede demissão e passa a ser uma decisão estratégica contínua, com custo de adiamento que dá para medir.

A empresa que trata continuidade de liderança como projeto de RH para o ano que vem está, na prática, apostando que vai ter sorte com o tempo. E sorte não é plano de sucessão.

Conhece um decisor que deixou a sucessão para o ano que vem? Encaminhe esta edição. O melhor momento para começar já passou. O segundo melhor é hoje.

Vamos conversar

Esse é exatamente o tipo de desafio que eu resolvo.

Se a sucessão na sua empresa ainda está na gaveta, vamos tirá-la de lá enquanto há pista.

Falar com Eloyse