Depois de três anos no topo da lista de competências mais desejadas em líderes, a empatia foi desbancada. Quem assumiu o primeiro lugar foi a capacidade de entregar resultados. As duas com o mesmo índice, 57,4%, segundo a 8ª edição do relatório de tendências em gestão de pessoas do Great Place to Work, ouvindo mais de mil e quinhentos líderes no Brasil e na América Latina. A empatia caiu para o quarto lugar.

”A leitura fácil diz que o mercado endureceu. A leitura certa é que ele parou de fingir.”

A leitura que já está circulando é a previsível. O cenário apertou, a incerteza sobre os negócios bateu o recorde da série histórica, saltou de 16% em 2019 para 35,4% agora, e diante de aperto o mercado teria voltado ao pragmatismo. Fora a empatia, entra a cobrança. É uma narrativa limpa e é, na maior parte, errada.

Empresa não abandona aquilo que está instalado como sistema. Abandona aquilo que era enfeite. Quando a primeira pressão de caixa derruba uma competência do topo para o quarto lugar, o que aquela queda revela não é uma mudança de valor. É que o valor anterior nunca foi estrutura. Era discurso.

A incerteza recorde não mudou as prioridades das empresas. Funcionou como teste de estresse. E teste de estresse não cria fragilidade, só expõe a que já existia.

A empatia que estava no topo nunca foi a que importa

Há duas coisas diferentes sendo chamadas pelo mesmo nome, e a confusão entre elas é o que produz a falsa surpresa com o dado.

A primeira é a empatia declarada. Ela vive no discurso, na política interna, na frase bonita da página de cultura, no dia comemorativo. Custa pouco e rende imagem. É a empatia que cabe num slide. Foi essa que passou três anos no topo das pesquisas, porque é fácil desejar e barato afirmar.

A segunda é o vínculo que opera. Não é sentimento, é função. É a razão pela qual a pessoa certa não retorna a ligação do recrutador do concorrente numa sexta-feira à tarde. É o que faz alguém escolher resolver um problema em vez de empurrá-lo para o próximo turno. O vínculo que opera não aparece em pesquisa de competência desejada porque não é uma virtude que se declara, é um resultado que se constrói, e que aparece, ou não aparece, nos números de retenção, de continuidade, de quanto a operação aguenta quando o líder sai de cena.

A diferença entre as duas não é de grau, é de natureza. Uma é leitura de RH. A outra é leitura de negócio. E é exatamente por isso que a primeira despencou na crise e a segunda, em quem a tem, não se move: ninguém corta a fundação para economizar no enfeite.

A prova chegou pela porta dos fundos

Há um segundo dado no mesmo relatório que, lido junto com o primeiro, fecha o argumento.

A saúde mental, que ocupava a segunda posição entre as maiores preocupações das empresas, despencou de 30% para 19,3% e saiu da lista dos principais desafios. A leitura oficial do relatório é generosa: seria sinal de maturidade, de um tema que deixou de ser emergência porque virou prática estruturada.

Talvez seja. Mas repare no que aconteceu ao mesmo tempo, e no calendário em que aconteceu. A escuta dessa pesquisa foi feita em novembro e dezembro de 2025. Exatamente quando as empresas viam chegar a data em que a saúde mental deixaria de ser pauta de boa vontade e passaria a ser obrigação fiscalizável. Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 trata os riscos psicossociais, sobrecarga, assédio, metas inalcançáveis, nos mesmos moldes formais com que sempre tratou os riscos físicos e químicos. Identificar, avaliar, gerenciar, sob risco de autuação, em empresas de todos os portes.

Ou seja: a saúde mental não saiu da lista de preocupações por ter sido resolvida. Mudou de coluna. Saiu da coluna das prioridades voluntárias e entrou na das obrigações legais. Parou de ser virtude de parede no exato momento em que virou passivo a gerenciar.

E o pano de fundo desautoriza a leitura otimista. Em 2025, o país registrou o maior volume da série histórica de afastamentos por transtorno mental. Adoecimento em recorde, no mesmo ano em que o tema perde prioridade declarada. Isso não é maturidade. É um tema que só foi tratado como risco quando o Estado o transformou em risco com nome, prazo e multa.

Uma ressalva honesta: a queda na pesquisa e a chegada da fiscalização são simultâneas, e simultaneidade não é causa provada. Não estou afirmando que a lei esvaziou a pauta. Estou apontando a coincidência, porque ela é cara demais para passar batida.

O que isso diz sobre quem decide

A pergunta que interessa não é como a sua empresa se adequa à NR-1. Essa, mil consultorias de compliance respondem melhor do que eu. A pergunta é anterior e é desconfortável: por que a sua empresa precisou de uma lei para tratar como risco aquilo que vinha tratando como enfeite?

Se o vínculo com as pessoas só entra no seu orçamento quando há multa do outro lado, ele nunca foi estratégia. Foi medo administrado. E medo não constrói retenção, no máximo evita autuação. São coisas diferentes, e só uma delas aparece no resultado do ano seguinte.

O líder que lê o negócio antes de falar de gente faz a separação que a crise acabou de impor à força: o que no meu orçamento é enfeite cortável, e o que é fundação do número que pretendo entregar? Quem nunca fez essa conta acaba de descobrir, no susto, que vinha cortando fundação achando que cortava enfeite.

”A pergunta nunca foi se você tem empatia. É se o que você chama de empatia opera quando ninguém está obrigando, e ninguém está olhando.”

A empatia não caiu de prioridade. Caiu a máscara. E para quem lê o negócio antes de falar de gente, máscara caindo é boa notícia. Finalmente dá para discutir o vínculo pelo que ele é: uma decisão de continuidade do negócio. Não um valor de parede para a página de cultura, nem uma linha de compliance para evitar multa.

Vamos conversar

Esse é exatamente o tipo de desafio que eu resolvo.

Se o vínculo com as pessoas só entra no orçamento quando há multa do outro lado, vale conversar sobre o que é fundação e o que é enfeite na sua liderança.

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